Quem resiste a um cheirinho de bolo saindo do forno? Crescemos com esse tradicional alimento recheando nossas mesas e abrindo nosso apetite. A receita parece simples: ovos, leite, manteiga e farinha. Ops! Já ia me esquecendo do ator principal, aquele que faz o bolo ganhar vida e crescer: o fermento! Hoje encontrado nos supermercados, acondicionados em pequenas latinhas, fica difícil imaginar quão revolucionária foi sua aparição como um organismo vivo, uma entidade autossuficiente. A história desse Pasteur diretor e desse fermento ator ilustra bem essa relação humanos/não-humanos, fatos e artefatos, passíveis de transformações constantes. Assim é nosso cotidiano, com cada vez mais entrelaçamentos do homem com as tecnologias, a ponto de não sabermos mais onde estão os limites, como identificar as fronteiras. Uma cadeira de rodas, um óculos, um parafuso no joelho. Um estente coronariano, uma placa de titânio, uma lente de contato. #somostodosciborgues
Os textos de Latour são densos de conceitos e referências. No capítulo 4, Latour usa os estudos sobre ácido lático de Pasteur para estabilizar alguns dos principais conceitos dos estudos sociais das ciências, como porta-voz (“Pasteur autoriza o fermento a autorizá-lo a falar em nome dele”), modalidades (“O ácido lático foi descoberto por Sheele em 1780 no soro do leite) e até mesmo arenas epistêmicas (quando fala em lealdades disciplinares).
Ele analisa a construção do artigo de Pasteur e como, camada após camada, translação após translação, um elemento vai da ficção ao fato, da inexistência à existência. Coloca, ainda, como, para que este fato se estabeleça, tudo deve ser transformado, o fermento, Pasteur e a própria academia.
Por fim, não dá para deixar de comentar a definição de Latour de experimento, como evento e não acontecimento. Um evento depende das associações e da atuação de atores humanos e não humanos, as quais nunca são previsíveis. Citando Deleuze e Guattari:
““É que ninguém, nem mesmo Deus, pode dizer de antemão se duas bordas irão enfileirar-se ou fazer fibra, se tal multiplicidade passará ou não a tal outra, ou se tais elementos heterogêneos entrarão em simbiose, farão uma multiplicidade consistente ou de cofuncionamento, apta à transformação. Ninguém pode dizer por onde passará a linha de fuga”. (Mil Platôs, volume 4, capítulo 1, p. 29)
Reação do capítulo 4: Assim como Latour neste capítulo discorre sobre a transformação da realidade pelos cientistas, Mary Shelley , escritora inglesa e autora do romance Frankenstein, onde Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais constrói um monstro em seu laboratório. Assim como o monstro de Mary, o fermento se torna uma entidade autossuficiente e viva. Além disso, Latour contextualiza a experiência de Pasteur e o choque de sua descoberta para um período da história da ciência onde a fermentação vinha sendo explicada em termos meramente químicos. A fermentação do ácido láctico dá a Pasteur a vitória sobre seus opositores e ele vence a batalha científica da época. Com isso, Pasteur oferece uma oportuna solução para algo que é controverso em epistemologia, a saber, de que algo novo pode brotar de uma entidade antiga. Ao olhar para concepção de um novo ser humano que brota a partir da junção dos gametas masculinos e femininos. Assim como uma nova vida, o fermento do ácido láctico foi inventado não por alguém, mas pelo próprio fermento. Latour mostra a simetria entre o inventor e a "invenção" no plano em que o primeiro ajuda a mostrar quem era e o segundo torna o inventor laureado. Percebemos a perfeita participação de atores humanos e não humanos no trabalho de Pasteur. A explicações feita por metáforas são interessantes e dentre elas a metáfora teatral, na minha opinião, é a melhor, onde desaparece qualquer resquício de trabalho e coloca o cientista como um mágico de picadeiro. Diante disso, embora experiência de Pasteur tenha sido um sucesso, assim como o monstro Frankenstein, o fermento do ácido láctico torna -se livre do seu criador.
No capítulo 4 o autor apresenta e destrincha o artigo “Memória sobre a fermentação dita láctea” de Luís Pasteur, que em meados do século XIX buscou demonstrar em seu ensaio que a fermentação do ácido láctico poderia resultar em um organismo vivo, algo muito ousado na época, quando até então se considerava que esse resultado trazia algo puramente químico, com substâncias inertes. O sucesso do teste demonstrou que a recombinação de elementos preexistentes pode construir algo novo, além de trazer um mútuo aprimoramento dos seus agentes, quando Pasteur ajudou o fermento a mostrar quem de fato era (um organismo vivo), e o fermento ajudou Pasteur convencer a Academia e, principalmente, entrar para a história, ou seja, uma dupla autoria (Pasteur e o fermento), a influência do humano sobre o não-humano e vice-versa. No entanto, interessante o ponto de vista de Latour quando diz que “nada de novo acontece”, os experimentos apenas revelam a natureza, sociedade, tendências e pontos cegos que já estavam lá o tempo todo, mas nem por isso é um jogo zerado, pelo contrário, é um evento, e não uma descoberta. Para compreensão da ciência o autor faz uso de metáforas onde apresenta os seus pontos fortes e pontos fracos. Destacou-me o fato de que além do exitoso resultado prático do experimento, demonstrar que o fermento é um organismo vivo, Pasteur trouxe ao protagonismo a criatura, como agente de destaque no ensaio.
ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE Aluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa Reação ao capítulo 4 do livro “A Esperança de Pandora”
Na análise que Latour faz das controvérsias em torno das descobertas de Louis Pasteur no século XIX, ele mostra como o sucesso do cientista não foi fruto de suas ações solitariamente, mas da combinação de seu talento com forças que incluíam desde o movimento higienista aos interesses coloniais, passando pela disputa com outros cientistas. Nessa concepção de que os homens nunca efetuam sozinhos suas ações, Latour nos faz ainda questionar se foi mesmo Pasteur que produziu o ácido láctico ou se foi o ácido láctico que produziu Pasteur como esse grande cientista que hoje reconhecemos! Assim como o objeto de sua descoberta, o cientista também seria efeito de uma associação de elementos heterogêneos, humanos e não humanos, produzida sob determinadas condições. Uma coisa que me chamou a atenção neste capítulo, foi o uso de várias metáforas para ajudar na compreensão do experimento de Pasteur, mas nenhuma delas por si só é capaz disso. Entendendo o experimento científico como um evento ou um acontecimento, Latour não abandona a ideia de substancia, mas agora a substancia não é mais definida por algo imutável portadora de atributos e acidentes, mas por um conjunto de verbos, que remetem a gestos de laboratório. Significa que a substancia é uma construção (ou uma relação) como ocorre em todos os empirismos. “Estamos fazendo a história de Pasteur e de seu fermento, do fermento e de seu Pasteur; estamos falando de acontecimentos definidos apenas por suas relações.”
“A operação científica é ontológica, ela cria os objetos que descreve”. Escrevi a frase no rodapé de um caderno, não anotei o autor. Trazendo um pouco do fluxo sanguíneo do capítulo passado, aqui vemos a transversalidade das artérias, os nós, os rizomas expostos.
Assissti uma reportagem sobre a queda na taxa de vacinação, comprometendo desta forma a Europa e EUA , isso está acontecendo desde que foi apresentada uma pesquisa que aponta uma associação entre a vacinação contra a tríplice víral ( sarampo, rubéola e cachumba) e o autismo, disponível em https://globoplay.globo.com/v/7566386/ Não cabe aqui minha opinião sobre a eficácia da vacinação ou não, mas um destaque para o modo como vem sendo feita a ciência e o quanto ela impacta na vida da sociedade. É preciso estar atento para a construção e fabricação dos estudos científicos, observando suas conexões/consequências entre humanos e não-humanos
O fracasso do objetivismo me fez refletir quanto ao realismo, nossas concepções de realidade são fabricadas por nós, e fica claro essa afirmação no texto quando Latuor apresenta “a solução de Pasteur para o conflito entre construtivismo e realismo” ele escreve “Quem é o autor do processo todo e quem é a autoridade no texto”, o nosso olhar e interpretação do texto podem não refletir a realidade da sociedade ou da autoridade do texto.
Reações Latour, nesse capítulo, utiliza-se dos estudos de Pasteur sobre o ácido lático para conceituar alguns estudos das ciências. O seu texto leva-nos a ver de que forma as transformações ocorreram, não só no contexto científico como na academia. Os atores humanos e não-humanos se fazem presente ao definir experimento. O autor utiliza-se de metáforas para auxiliar ou garantir uma melhor compreensão do texto, ao descrever a experiência de Pasteur. Tal recurso acaba por deixar mais complexo a compreensão ao confrontar as ideias de humano e não humano.
Já tendo lido “Ciência em ação” e “Cogitamus”, do Bruno Latour, em “A esperança de Pandora” ele parece estar dedicando cada capítulo a um dos temas quem compõem a sua teoria do ato-rede. Neste capítulo 4 ele usa o artigo do Pasteur para ilustrar o seu conceito de retórica. Este é um dos pontos mais combatidos pelos seus críticos que o apontam muitas vezes como um filósofo/historiador da ciência preocupado com os artigos científicos. De qualquer forma é interessante ver como Latour aponta a encenação criada por Pasteur para conduzir o leitor a acompanhar o seu raciocínio, quase como um ilusionista, que lança luz para onde quer levar a atenção da plateia. Não que Pasteur tenha algo a esconder mas, certamente tem algo a mostrar. Nas páginas 146 e 147 Latour nos fala sobre “Da fabricação dos fatos aos eventos” e que Pasteur constrói três testes 1) é a própria história contada, 2) são todos os aparatos “não verbais, não linguísticos” e 3) é a própria experiência em si em que ele permite que o fermento se apresente à Academia. Fiquei pensando, teria Pasteur criado/imaginado a história mentalmente e então procurado meios empíricos de comprová-la? Ele teria imaginado isso sozinho ou teria se baseado no trabalho de alguém ou se inspirado em algo? Outro ponto importante da teoria de Latour é o que contradiz que o fermento sempre existiu e só estava esperando que Pasteur o descobrisse. Para Latour o fermento só existe após Pasteur e o próprio fermento criarem condições dele se tornar visível/presente ao mundo.
A forte presença de termos e conceitos da linguística e da filosofia da linguagem me instigaram a procurar as origens (ou seria ponto de encontro?) dessa recorrência no trabalho de Bruno Latour, até para melhor entendê-lo. Não se tratam apenas de citações, remissões ou comparações. Conceitos basilares da ciência da linguagem estão no cerne do pensamento de Latour em A esperança da Pandora. No capítulo 4, por exemplo, Latour apresenta seus conceitos de articulação e proposição aplicados ao Estudo da Ciência, deixando claro que o termo articulação não se limita à linguagem nem é exclusivo da fala; antes “é uma propriedade ontológica do universo”. O que ele mostra, graficamente inclusive, é uma articulação entre proposições e que vai mais fundo do que a fala (“Nós falamos porque as proposições do mundo são elas próprias articuladas e não o contrário.”). Latour desenvolve suas ideias valendo-se de figuras de retórica, de metáforas; fala sobre o papel desempenhado pela linguagem e reflete sobre a relação da linguagem com a prática científica e, no âmago de seu pensamento, frente ao par ciência-mundo, apropria-se da não menos polêmica relação da palavra com as coisas. A investigação nos levou até Alfred North Whitehead (1861-1947), filósofo, lógico e matemático britânico, cuja obra Process and Reality, que integra a Bibliografia de A esperança de Pandora, inaugura a filosofia do processo, de marcas significativas em Latour.
Reação ao Capítulos 4, 5 e 6 OBSERVAÇÃO: REAÇÃO DO CARLOS ALBERTO PAIXÃO
Outro ponto associado ao já citado no comentário anterior, e também discutido pelo autor, notadamente quando vista o laboratório de Louis Pasteur e examina seus escritos acerca da fermentação lática(nos capítulos 4 e 5), bem como nos onze episódios em que trata da questão da mediação técnica(no capítulo 6), diz respeito ao modo como ele vê processar-se a inserção do não-humano no discurso humano. Latour detém-se longamente no exame do que ele considera como diferentes etapas ontológicas através das quais uma entidade não humana( o fermento lático, em seu exemplo) precisou passar até configurar-se como uma substância plenamente aceita – “com nome e localização no mais venerável ramo da substância natural, a taxonomia”(ver pág. 141) Ele buscou mostrar, especialmente nesses capítulos, como os Science Studies permitem que se amplie o exame das possibilidades ontológicas, ao lidarem com categorias que, usualmente, não cabem no par sujeito-objeto,e como esses Estudos atuam, também , na direção do rompimento da divisão estabelecida e sacramentada pelo acordo moderno entre epistemologia e ontologia. Nesse acordo, como o autor refere, os objetos alojam-se na natureza e os sujeitos na sociedade. Ainda segundo os Science Studies, os não –humanos entrelaçam-se aos humanos no já refrido processo de translação, bem como nos movimentos de articulação, delegação e deslocamento que os alojam não na sociedade, palavra que Latour considera estar por demais contaminada pelo uso que dela já se fez, mas no coletivo, no qual se dá o intercâmbio de propriedades humanas e não-humanas no seio de uma corporação. O “jogo” consiste, então, não em “estender a subjetividade às coisas, tratar os humanos como objetos, tomar máquinas como autores sociais e sim em evitar, a todo custo, o emprego da distinção sujeito-objeto ao discorrer sobre o entrelaçamento de humanos e não-humanos”( ver pág. 222).
Quem resiste a um cheirinho de bolo saindo do forno? Crescemos com esse tradicional alimento recheando nossas mesas e abrindo nosso apetite. A receita parece simples: ovos, leite, manteiga e farinha. Ops! Já ia me esquecendo do ator principal, aquele que faz o bolo ganhar vida e crescer: o fermento!
ResponderExcluirHoje encontrado nos supermercados, acondicionados em pequenas latinhas, fica difícil imaginar quão revolucionária foi sua aparição como um organismo vivo, uma entidade autossuficiente. A história desse Pasteur diretor e desse fermento ator ilustra bem essa relação humanos/não-humanos, fatos e artefatos, passíveis de transformações constantes.
Assim é nosso cotidiano, com cada vez mais entrelaçamentos do homem com as tecnologias, a ponto de não sabermos mais onde estão os limites, como identificar as fronteiras. Uma cadeira de rodas, um óculos, um parafuso no joelho. Um estente coronariano, uma placa de titânio, uma lente de contato. #somostodosciborgues
Os textos de Latour são densos de conceitos e referências. No capítulo 4, Latour usa os estudos sobre ácido lático de Pasteur para estabilizar alguns dos principais conceitos dos estudos sociais das ciências, como porta-voz (“Pasteur autoriza o fermento a autorizá-lo a falar em nome dele”), modalidades (“O ácido lático foi descoberto por Sheele em 1780 no soro do leite) e até mesmo arenas epistêmicas (quando fala em lealdades disciplinares).
ResponderExcluirEle analisa a construção do artigo de Pasteur e como, camada após camada, translação após translação, um elemento vai da ficção ao fato, da inexistência à existência. Coloca, ainda, como, para que este fato se estabeleça, tudo deve ser transformado, o fermento, Pasteur e a própria academia.
Por fim, não dá para deixar de comentar a definição de Latour de experimento, como evento e não acontecimento. Um evento depende das associações e da atuação de atores humanos e não humanos, as quais nunca são previsíveis. Citando Deleuze e Guattari:
““É que ninguém, nem mesmo Deus, pode dizer de antemão se duas bordas irão enfileirar-se ou fazer fibra, se tal multiplicidade passará ou não a tal outra, ou se tais elementos heterogêneos entrarão em simbiose, farão uma multiplicidade consistente ou de cofuncionamento, apta à transformação. Ninguém pode dizer por onde passará a linha de fuga”. (Mil Platôs, volume 4, capítulo 1, p. 29)
Reação do capítulo 4: Assim como Latour neste capítulo discorre sobre a transformação da realidade pelos cientistas, Mary Shelley , escritora inglesa e autora do romance Frankenstein, onde Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais constrói um monstro em seu laboratório. Assim como o monstro de Mary, o fermento se torna uma entidade autossuficiente e viva. Além disso, Latour contextualiza a experiência de Pasteur e o choque de sua descoberta para um período da história da ciência onde a fermentação vinha sendo explicada em termos meramente químicos. A fermentação do ácido láctico dá a Pasteur a vitória sobre seus opositores e ele vence a batalha científica da época. Com isso, Pasteur oferece uma oportuna solução para algo que é controverso em epistemologia, a saber, de que algo novo pode brotar de uma entidade antiga. Ao olhar para concepção de um novo ser humano que brota a partir da junção dos gametas masculinos e femininos. Assim como uma nova vida, o fermento do ácido láctico foi inventado não por alguém, mas pelo próprio fermento. Latour mostra a simetria entre o inventor e a "invenção" no plano em que o primeiro ajuda a mostrar quem era e o segundo torna o inventor laureado. Percebemos a perfeita participação de atores humanos e não humanos no trabalho de Pasteur. A explicações feita por metáforas são interessantes e dentre elas a metáfora teatral, na minha opinião, é a melhor, onde desaparece qualquer resquício de trabalho e coloca o cientista como um mágico de picadeiro. Diante disso, embora experiência de Pasteur tenha sido um sucesso, assim como o monstro Frankenstein, o fermento do ácido láctico torna -se livre do seu criador.
ResponderExcluirNo capítulo 4 o autor apresenta e destrincha o artigo “Memória sobre a fermentação dita láctea” de Luís Pasteur, que em meados do século XIX buscou demonstrar em seu ensaio que a fermentação do ácido láctico poderia resultar em um organismo vivo, algo muito ousado na época, quando até então se considerava que esse resultado trazia algo puramente químico, com substâncias inertes. O sucesso do teste demonstrou que a recombinação de elementos preexistentes pode construir algo novo, além de trazer um mútuo aprimoramento dos seus agentes, quando Pasteur ajudou o fermento a mostrar quem de fato era (um organismo vivo), e o fermento ajudou Pasteur convencer a Academia e, principalmente, entrar para a história, ou seja, uma dupla autoria (Pasteur e o fermento), a influência do humano sobre o não-humano e vice-versa. No entanto, interessante o ponto de vista de Latour quando diz que “nada de novo acontece”, os experimentos apenas revelam a natureza, sociedade, tendências e pontos cegos que já estavam lá o tempo todo, mas nem por isso é um jogo zerado, pelo contrário, é um evento, e não uma descoberta. Para compreensão da ciência o autor faz uso de metáforas onde apresenta os seus pontos fortes e pontos fracos. Destacou-me o fato de que além do exitoso resultado prático do experimento, demonstrar que o fermento é um organismo vivo, Pasteur trouxe ao protagonismo a criatura, como agente de destaque no ensaio.
ResponderExcluirA reação acima foi registrada por George Gama.
ExcluirESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
ResponderExcluirAluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa
Reação ao capítulo 4 do livro “A Esperança de Pandora”
Na análise que Latour faz das controvérsias em torno das descobertas de Louis Pasteur no século XIX, ele mostra como o sucesso do cientista não foi fruto de suas ações solitariamente, mas da combinação de seu talento com forças que incluíam desde o movimento higienista aos interesses coloniais, passando pela disputa com outros
cientistas. Nessa concepção de que os homens nunca efetuam sozinhos suas ações, Latour nos faz ainda questionar se foi mesmo Pasteur que produziu o ácido láctico ou se foi o ácido láctico que produziu Pasteur como esse grande cientista que hoje reconhecemos! Assim como o objeto de sua descoberta, o cientista também seria efeito de uma associação de elementos heterogêneos, humanos e não humanos, produzida sob determinadas condições.
Uma coisa que me chamou a atenção neste capítulo, foi o uso de várias metáforas para ajudar na compreensão do experimento de Pasteur, mas nenhuma delas por si só é capaz disso. Entendendo o experimento científico como um evento ou um acontecimento, Latour não abandona a ideia de substancia, mas agora a substancia não é mais definida por algo imutável portadora de atributos e acidentes, mas por um conjunto de verbos, que remetem a gestos de laboratório. Significa que a substancia é uma construção (ou uma relação) como ocorre em todos os empirismos. “Estamos fazendo a história de Pasteur e de seu fermento, do fermento e de seu Pasteur; estamos falando de acontecimentos definidos apenas por suas relações.”
“A operação científica é ontológica, ela cria os objetos que descreve”. Escrevi a frase no rodapé de um caderno, não anotei o autor. Trazendo um pouco do fluxo sanguíneo do capítulo passado, aqui vemos a transversalidade das artérias, os nós, os rizomas expostos.
ResponderExcluirAssissti uma reportagem sobre a queda na taxa de vacinação, comprometendo desta forma a Europa e EUA , isso está acontecendo desde que foi apresentada uma pesquisa que aponta uma associação entre a vacinação contra a tríplice víral ( sarampo, rubéola e cachumba) e o autismo, disponível em https://globoplay.globo.com/v/7566386/
ResponderExcluirNão cabe aqui minha opinião sobre a eficácia da vacinação ou não, mas um destaque para o modo como vem sendo feita a ciência e o quanto ela impacta na vida da sociedade. É preciso estar atento para a construção e fabricação dos estudos científicos, observando suas conexões/consequências entre humanos e não-humanos
O fracasso do objetivismo me fez refletir quanto ao realismo, nossas concepções de realidade são fabricadas por nós, e fica claro essa afirmação no texto quando Latuor apresenta “a solução de Pasteur para o conflito entre construtivismo e realismo” ele escreve “Quem é o autor do processo todo e quem é a autoridade no texto”, o nosso olhar e interpretação do texto podem não refletir a realidade da sociedade ou da autoridade do texto.
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ResponderExcluirLatour, nesse capítulo, utiliza-se dos estudos de Pasteur sobre o ácido lático para conceituar alguns estudos das ciências. O seu texto leva-nos a ver de que forma as transformações ocorreram, não só no contexto científico como na academia. Os atores humanos e não-humanos se fazem presente ao definir experimento.
O autor utiliza-se de metáforas para auxiliar ou garantir uma melhor compreensão do texto, ao descrever a experiência de Pasteur. Tal recurso acaba por deixar mais complexo a compreensão ao confrontar as ideias de humano e não humano.
Já tendo lido “Ciência em ação” e “Cogitamus”, do Bruno Latour, em “A esperança de Pandora” ele parece estar dedicando cada capítulo a um dos temas quem compõem a sua teoria do ato-rede. Neste capítulo 4 ele usa o artigo do Pasteur para ilustrar o seu conceito de retórica. Este é um dos pontos mais combatidos pelos seus críticos que o apontam muitas vezes como um filósofo/historiador da ciência preocupado com os artigos científicos. De qualquer forma é interessante ver como Latour aponta a encenação criada por Pasteur para conduzir o leitor a acompanhar o seu raciocínio, quase como um ilusionista, que lança luz para onde quer levar a atenção da plateia. Não que Pasteur tenha algo a esconder mas, certamente tem algo a mostrar. Nas páginas 146 e 147 Latour nos fala sobre “Da fabricação dos fatos aos eventos” e que Pasteur constrói três testes 1) é a própria história contada, 2) são todos os aparatos “não verbais, não linguísticos” e 3) é a própria experiência em si em que ele permite que o fermento se apresente à Academia. Fiquei pensando, teria Pasteur criado/imaginado a história mentalmente e então procurado meios empíricos de comprová-la? Ele teria imaginado isso sozinho ou teria se baseado no trabalho de alguém ou se inspirado em algo?
ResponderExcluirOutro ponto importante da teoria de Latour é o que contradiz que o fermento sempre existiu e só estava esperando que Pasteur o descobrisse. Para Latour o fermento só existe após Pasteur e o próprio fermento criarem condições dele se tornar visível/presente ao mundo.
A forte presença de termos e conceitos da linguística e da filosofia da linguagem me instigaram a procurar as origens (ou seria ponto de encontro?) dessa recorrência no trabalho de Bruno Latour, até para melhor entendê-lo. Não se tratam apenas de citações, remissões ou comparações. Conceitos basilares da ciência da linguagem estão no cerne do pensamento de Latour em A esperança da Pandora. No capítulo 4, por exemplo, Latour apresenta seus conceitos de articulação e proposição aplicados ao Estudo da Ciência, deixando claro que o termo articulação não se limita à linguagem nem é exclusivo da fala; antes “é uma propriedade ontológica do universo”. O que ele mostra, graficamente inclusive, é uma articulação entre proposições e que vai mais fundo do que a fala (“Nós falamos porque as proposições do mundo são elas próprias articuladas e não o contrário.”). Latour desenvolve suas ideias valendo-se de figuras de retórica, de metáforas; fala sobre o papel desempenhado pela linguagem e reflete sobre a relação da linguagem com a prática científica e, no âmago de seu pensamento, frente ao par ciência-mundo, apropria-se da não menos polêmica relação da palavra com as coisas. A investigação nos levou até Alfred North Whitehead (1861-1947), filósofo, lógico e matemático britânico, cuja obra Process and Reality, que integra a Bibliografia de A esperança de Pandora, inaugura a filosofia do processo, de marcas significativas em Latour.
ResponderExcluirReação ao Capítulos 4, 5 e 6
ResponderExcluirOBSERVAÇÃO: REAÇÃO DO CARLOS ALBERTO PAIXÃO
Outro ponto associado ao já citado no comentário anterior, e também discutido pelo autor, notadamente quando vista o laboratório de Louis Pasteur e examina seus escritos acerca da fermentação lática(nos capítulos 4 e 5), bem como nos onze episódios em que trata da questão da mediação técnica(no capítulo 6), diz respeito ao modo como ele vê processar-se a inserção do não-humano no discurso humano. Latour detém-se longamente no exame do que ele considera como diferentes etapas ontológicas através das quais uma entidade não humana( o fermento lático, em seu exemplo) precisou passar até configurar-se como uma substância plenamente aceita – “com nome e localização no mais venerável ramo da substância natural, a taxonomia”(ver pág. 141)
Ele buscou mostrar, especialmente nesses capítulos, como os Science Studies permitem que se amplie o exame das possibilidades ontológicas, ao lidarem com categorias que, usualmente, não cabem no par sujeito-objeto,e como esses Estudos atuam, também , na direção do rompimento da divisão estabelecida e sacramentada pelo acordo moderno entre epistemologia e ontologia. Nesse acordo, como o autor refere, os objetos alojam-se na natureza e os sujeitos na sociedade. Ainda segundo os Science Studies, os não –humanos entrelaçam-se aos humanos no já refrido processo de translação, bem como nos movimentos de articulação, delegação e deslocamento que os alojam não na sociedade, palavra que Latour considera estar por demais contaminada pelo uso que dela já se fez, mas no coletivo, no qual se dá o intercâmbio de propriedades humanas e não-humanas no seio de uma corporação. O “jogo” consiste, então, não em “estender a subjetividade às coisas, tratar os humanos como objetos, tomar máquinas como autores sociais e sim em evitar, a todo custo, o emprego da distinção sujeito-objeto ao discorrer sobre o entrelaçamento de humanos e não-humanos”( ver pág. 222).
OBSERVAÇÃO: REAÇÃO DO CARLOS ALBERTO PAIXÃO