Capítulo 5

Comentários

  1. Ao mesmo tempo em que releio esse capítulo da Esperança de Pandora do Latour me deparo com o Sharing suffering, de Donna Haraway, outra fera dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade (CTS). Fera, aliás, serve bem como metáfora nesse texto da Haraway, que versa sobre pessoas e animais de uma forma só permitida nesse nosso híbrido campo: como sujeitos e objetos uns dos outros e uns para os outros. Isso me fez pensar nos animais vistos como coisas segundo os padrões da língua cientificamente excelente - o inglês - que inclui os bichanos na denominação "it". Ora, se os bichos - com os quais compartilhamos amor, companheirismo e nesse ensaio da Haraway o sofrimento - são relegados a coisas, que se dirá das coisas que já nascem coisas? Ah, mas aqui nos estudos CTS os "não-humanos nascem livres e estão por toda parte encadeados" e aqui é dado o "acréscimo do estranho pressuposto da historicidade das coisas". Mais que isso! Por aqui aprendemos que não deve haver dicotomia entre humanos e não-hurnanos e que devemos suspeitar de expressões como nunca, em parte alguma, sempre, em toda parte. Se o fermento existia ou não antes de Pasteur não deveria ser uma pergunta tão importante, até porque a resposta será sempre questionável. Mais interessante é seguirmos esses actantes e entendermos o que permitiu esse encontro e seus desdobramentos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    2. Juliana, penso que você, paradoxalmente, conseguiu ser sintética e prolixa, sem deixar de ser romântica. No mais uma curiosidade: O que será que a sua xará comentou?

      Excluir
  2. Reação do capítulo 5: O questionamento de Latour sobre a dicotomia entre sujeito-objeto nos leva a uma pergunta interessante: Pasteur fez os micróbios e com isso, estes são os agentes passivos ou foram os micróbios que conduzem o raciocínio de Pasteur tornando-o um mero observador passivo da atividades dos micróbios? Segundo Latour está dicotomia é desvantajosa por que não existe apenas dois atores, Opinião que concordo amplamente
    Além disso, o texto mostra a desconstrução da tese da geração espontânea em face ao experimento do " pescoço de cisne - tubo em S - que Pasteur desenvolvia em seu laboratório na rua de Ulm, em Paris. É importante comentar, que a geração espontânea foi elaborada na Grécia antiga por pensadores como Anaximandro de Mileto e Xenófanes de Cólofon e perdurou por séculos até chegar ao ano de 1864, onde essa tese já não encontrava mais espaço na Academia de Ciência e na sociedade devido aos experimentos de Pasteur. Os seus adeptos ainda labutavam numa guerra inglória de um mundo que não existia mais. Comparando com os tempos atuais, "teses" e "ciências" foram aquecidas ou inventadas, como por exemplo: a teoria da Terra plana, movimentos antivacinas e a releitura de doutrinas políticas. Contudo, a geração espontânea não era uma teoria marginal da ciência e sim a principal explicação do aparecimento de determinadas espécies. Latour nos mostra que os fins das coisas não significa que elas nunca existiram. Logo, acredito que cabe aos filósofos da ciência expurgar do mundo o que se torna errôneo através dos não-humanos que são livres e por isso puderam conduzir Pasteur até o seu experimento revolucionário e atemporal.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aleksandro, sua reação me trouxe a Grécia antiga, de novo. Ditos inventores da democracia, da filosofia, do teatro, dos jogos olímpicos, etc, etc às vezes perturbam um nativo do novo mundo, como eu. Já ouvi algumas vezes pessoas ilustres dizendo que "depois da Grécia nada mais há o que se inventar de novo". Como se situar entre os yanomamis temendo o céu desabando e os cientistas diante das ameaças do efeito estufa? Parece a provocação que Latour faz com a linha do tempo na sua figura 5.2. Não?

      Excluir
  3. A história das coisas
    Latour, em sua busca incessante de confrontar nossas ideias, nos leva a verificar a presença da referência circular na construção de um pensamento científico, onde a partir de uma ideia principal, sem a qual não há uma explicação fundamentada, a evolução das demonstrações e estudos específicos, ratificam a ideia inicial.
    O autor nos põem a pensar que o objetivo científico, nem sempre é puramente científico, pois, este pode ter sofrido uma deriva e, a partir de então, com um resultado conjugado, o novo tende a atender a quem? A ciência? Ao político? A sociedade? A todos? Muitas questões a serem compreendidas e respondidas.
    O que nos leva a pensar: a junção desses objetivos, como resultado, seria um resultado ou somente um terceiro objetivo? Que não necessariamente atenderia à sociedade.

    ResponderExcluir
  4. Um pedaço da minha reação ao capítulo 4 antecipa o assunto tratado por Latour neste capítulo 5: as coisas na natureza sempre existiram e só ficam esperando serem descobertas ou elas só passam a existir depois que são descobertas? Latour usa o exemplo dos micróbios e da disputa entre Pasteur e Pouchet que apoiava a teoria da geração espontânea.
    No ano de 1864, Pasteur cria um experimento e um procedimento de assepsia que impede a geração espontânea. Concomitantemente prova a existência dos micróbios. Dizer que tudo que se sabia até então estava errado é esquecer que as teorias serviam para dar respostas, boas respostas, as perguntas que eram feitas até então, para a visão de mundo que se tinha até aquele momento.
    Tomemos outro exemplo para ilustrar: o oxigênio sempre existiu ou só após Lavoisier o descobrir? Lembremos que a teoria do flogístico serviu, por muitos anos, para explicar certa visão do mundo.
    Vale lembrar que uma nova teoria não significa o fim da teoria que esta substitui. As duas vão convivendo por um período até que a nova suplante completamente a anterior. Este ideia é defendia por Thomas Kuhn no seu livro “A estrutura das revoluções científicas” no que ele chama de mudança de paradigmas. Latour nos fala que a teoria do Pouchet ganhou novas assertivas e que convive, hoje com a do Pasteur. Não entendi bem, estas novas assertivas parecem ter modificado substancialmente a teoria de Pouchet para dizermos que se trata de geração espontânea de vida.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fialho, muito bem observada e ressaltada a clássica questão da incomensurabilidade total ou parcial.

      Excluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Quando ainda estava pensando em retornar à vida acadêmica, me deparei com o professor Ivan em uma palestra. Falar, nos mesmos termos, de fatos científicos, instituições, leis, em um contexto, em uma única história, me encantou. As fronteiras, principalmente entre a natureza e a sociedade, tão utilizadas por mim anteriormente, começaram a ser desfeitas. Olhar todas as proposições e suas imbricações começou a fazer parte da forma como eu via as coisas: os cientistas que atuam, o tamanho do laboratório, uma tese que foi aceita pela academia ou não e em que momento. Comecei a observar a circulação de referências em um espaço-tempo e perceber que as questões se fecham dentro de suas referências, dentro de um enquadramento. Começo a pensar em uma história coletiva, em documentar as modificações, as articulações, as associações heterogêneas de humanos e não humanos; vou seguindo a mobilização dos elementos, suas combinações. É necessário interessar o outro, é necessário observar a escala, é necessário propagar a rede.
    Ler este capítulo me remeteu ao Brasil, e me fez questionar vários posicionamentos de nossos governantes realizados ao longo dos séculos. Seguir as controvérsias ou dar voz aos elementos heterogêneos que fizeram parte de cada cena poderia ser interessante para tentar entender algumas questões como, por exemplo: para quem e para que? Poderíamos começar pela criação da CAPES, na época chamada de Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que tinha como foco inicial assegurar a existência de pessoal especializado em quantidade e qualidade suficientes para um Brasil "desenvolvimentista" e hoje, quase 20 anos depois, é identificada como a instituição que diz quem pode ou não ganhar suporte financeiro para seus estudos. Ou, quem sabe, estudarmos o desmantelamento das estatais, como por exemplo da Telebrás, que tinha como promessas, entre outras, o barateamento das tarifas, livre concorrência, ampliação de acesso aos serviços no Brasil e hoje, quase 20 anos depois, ainda tem atendimento precário ou inexistente em várias regiões (2.221 municípios com péssima qualidade- dados Anatel) e custos elevadíssimos para o consumidor. Ou talvez a recente tentativa de desmantelamento das universidades públicas: interessa a quem? E, sim, eu sei que quando escrevo estas linhas, de alguma forma, estou tendo um único olhar, não observei todos os elementos heterogêneos justapostos em cada ação, mas as palavras são uma provocação

    ResponderExcluir
  7. O autor igualmente nos capítulos anteriores, leva uma reflexão da realidade de nossos conceitos de pensamento científico, utilizando de Pasteur através de estudos na busca por resultados, após a leitura do capítulo 5 estou avaliando meus processos de construção do conhecimento, antes muito focado no resultado cientifico, agora observo a necessidade de abrir o horizonte para questões mais complexas como os impactos do estudo nas relações sociais. No mundo globalizado as pesquisas em tecnologias sofrem mutações diárias, comparando com os estudos de Pasteur, podemos em um curto intervalo de tempo contestar a existência de uma tecnologia.

    ResponderExcluir
  8. É um capítulo que aborda com muita destreza os pormenores da historicidade da produção científica. Veio de encontro a minha opinião como profissional da educação e como estudante de filosofia da ciência. Quando o autor afirma que as substâncias não tem história mas as proposições têm entendo melhor o exemplo dado por ele: o esclarecimento de que a cortiça usada por Hooke para descrever a célula não mudou após descobrirem que nela, na verdade, ele não estava vendo células, mas os espaços definidos pelas paredes celulares que eram ocupados por elas antes da morte. O fato de o material observado por Hooke para descrever o que hoje consideramos como célula, não apresentar células em sua constituição, não exime a observação de sua legitimidade. Da mesma forma que as substâncias não têm história, as instâncias naturais sobre as quais são formuladas as teorias científicas também não tem história. É como se as instâncias naturais fossem a cera modelada pelo sinete para fechar um envelope: ela continua sendo cera, mesmo não sendo mais usada (por ter sido substituída por outro tipo de lacre) ou sendo usada por um sinete diferente. Achei genial quando o autor explica que a causalidade vem depois diz eventos e não antes: o fato de o fermento de Pasteur ter sido descoberto não justifica a descoberta por ela mesma; Pasteur não queria descobrir o fermento para descobri-lo, apenas o descobriu. Também considerei muito relevante a exposição a respeito da relação das descobertas no ano da própria descoberta e nos anos subsequentes. O próprio acúmulo de conhecimento e desenvolvimento de teorias científicas a partir da primeira faz com que esta primeira tenha sua visão histórica alterada ou um quê deturpada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nahya, fiquei curioso com uma coisa: o Latour usa esse exemplo da observação da cortiça no microscópio por Robert Hooke neste capítulo 5? Ou você fez (e bem) esta associação?

      Excluir
  9. No capítulo 5, Latour continua explorando o feito de Luís Pasteur, comentado do capítulo 4, só que agora com duas abordagens, uma onde questiona a existência do fermento antes de Pasteur, e a outra o “duelo” com Félix Archimède Pouchet.
    Para o autor, e eu compartilho, o fermento somente surgiu a partir da descoberta de Latour, pois por mais que historicamente ele já existisse na natureza (não-humano), provavelmente tendo sido evoluído ao longo dos anos, foi a partir da descoberta de Pasteur (humano) como organismo vivo que ele (fermento) se tornou conhecido/visível para a academia e o mundo. Não há a historicidade do fermento antes de ser descoberto por Pasteur, quando deixou de ser um atributo para ser uma substância. As dicotomias do sujeito-objeto e humano e não-humano andaram em harmonia trazendo bons resultados práticos para ambos, reconhecimento para Pasteur e visibilidade para o fermento.
    Pasteur e Pouchet duelaram no campo da ideia sobre a existência da geração espontânea. Para Pasteur os germes eram transportados pelo ar e por isso estão em todos os lugares; enquanto que Pouchet sustentava que havia uma geração espontânea desses germes, resultado concluído após análises dos seus frascos em laboratório.
    Conclui que na verdade os dois estavam certos, sendo que cada um no seu tempo, Pouchet até 1864, quando se acreditavam na geração espontânea, e a partir daquele ano em Pasteur, quando conseguiu provar que os germes eram transportados pelo ar. Mas, por mais que os dois tenham sido vencedores, cada qual em uma época, a história se encarregou de desempatar e estabelecer um vitorioso no duelo, pois até hoje em dia consumimos leites e iogurtes pasteurizados, e não “pouchetrizados”.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A reação acima foi registrada por George Gama.

      Excluir
    2. George, fico curioso das razões pelas quais as suas reações ficam anônimas. Duas perguntas: - você tem conta no google? - quando acessa o site para postar sua reação você está logado nela?

      Excluir
  10. O livro de Latour foi escrito nos anos 1990, mas suas reflexões caem como uma bigorna no Brasil de 2019 (e acredito que em boa parte do resto do mundo também). Ele traz à tona a existência de resistentes, adeptos da geração espontânea, como temos hoje, cada vez mais fortes, os terraplanistas e os criacionistas. Mas como enfrentar estas discussões? Seriam os fermentos reais?!?!
    O "fermento" não é um algo pré-existente e independente; é algo que depende da agência de muitos atores - laboratórios, Pasteur, microrganismos, meios de cultura, academia de ciências.... É nessa cadeia de associações que ele se estabiliza. Por isso ele é real!
    Eu acredito no trabalho dos cientistas, em especial quando olho com atenção aos detalhes e volteios de suas práticas. Acredito também, e mais ainda, quando sei que ciência é feita com valores e crenças. Assim, estou pronta para o trabalho diário, vou registrar, socializar, institucionalizar, padronizar e disseminar para estabilizar minhas caixas pretas. Uma delas é: o orçamento da seguridade social NÃO é deficitário e o corte da educação É de 30%!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sociotecnia simétrica na veia! Como tratar Pasteur e Pouchet nos mesmos termos? Será que conseguiremos enfrentar o desafio de esboçar os movimentos deles de forma simétrica? Aportuguesando a questão, ou melhor, puxando a brasa para a minha sardinha, como disse o Latour neste capítulo: "Os historiadores comuns parecem fazer um trabalho muito melhor do que os epistemologistas eminentes ao preservar as diferenças locais cruciais". Ou, no original: "The common historians seem to do
      a much better job than the towering epistemologists of maintaining
      the crucial local differences".

      Excluir
  11. Segue link do áudio para a aula de 16/05/2019


    http://bit.ly/20190516_Audio_ECTS-Cap_5e6_Pandora_Latour


    Observação importante: por algum tempo em alguns momentos da gravação acontecem alguns silêncios. Eles ocorrem porque nesta aula, em alguns momentos, ficamos apreciando imagens em silêncio. Especialmente o Jean nos levou a isso.


    Por favor, retornem se vocês conseguiram acessar e ouvir o áudio. Levem em consideração que a gravação é amadora e feita em um dispositivo improvisado (neste caso um celular véi)

    Mais uma vez, parece que gravamos sem redundância.

    Vamos que vamos

    ResponderExcluir
  12. Link para algumas imagens capturadas no nosso encontro dos ECTS de 16/05/2019: https://photos.app.goo.gl/33zeRV8q5FP8nvMc8

    ResponderExcluir
  13. O encontro com Whitehead joga luz sobre reflexões fundamentais em Latour, tais como o par humano-não humano e a dicotomia sujeito-objeto,/natureza-mente (ou sociedade), que ressaltam em “A historicidade das coisas” (A esperança de Pandora, cap. 5). Discorrendo sobre a historicidade e a existência dos fermentos antes de Pasteur, Latour refuta enfaticamente os dualismos que caracterizavam a filosofia da linguagem (antes do pensamento precursor de Whitehead). E tal como expõe a fragilidade e incoerência da linha divisória entre epistemologia e ontologia, salta sobre o abismo “entulhado” de ideias equivocadas que separam linguagem e mundo. Como o próprio Latour explica, sua pretensão nesse capítulo, é reformatar a questão da historicidade, utilizando as noções de proposição e articulação e trabalhando com o dualismo humano-não humano, no lugar do “conto de fadas” do sujeito-objeto. Fundamentais são também no mesmo capítulo a introdução da noção de substância, como a possibilidade, graças à sedimentação do tempo, de transformar uma entidade nova naquilo que subjaz a outras entidades, abrangendo dois significados: o de instituição, que mantém unido um amplo conjunto de estruturas e o de retro adaptação, que considera um evento mais recente como aquilo que subjaz a um mais antigo. Ressalvem-se ainda as observações sobre as dimensões linear e sedimentar do tempo. Na discussão sobre os micróbios de Pasteur, Latour retoma o primeiro dos temas abordados no livro, o da realidade e aqui, voltando à influência de Whiteread, vale retomar a abordagem do filósofo britânico que para quem a realidade só nos é disponibilizada pela nossa própria experiência.

    ResponderExcluir
  14. Falar sobre a historicidade das coisas me faz lembrar de uma frase que ouvi em uma das palestras da disciplina seminários: muitas vezes quando uma teoria ou artefato é criado, não há naquele instante muita função ou utilidade, e só anos depois pode ser aplicada em algo. Como por exempo, temos o caso da descoberta do efeito fotovoltaico ( energia solar) que remonta a 1839, sendo atribuída a Edmund Bacquerel,no entanto, só em meados dos anos 50, nos Laboratórios Bell e RCA, foram desenvolvidas as tecnologias fotovoltaicas atualmente empregues. Isso porque, a diferença entre passado e presente é de que no momento em que Bacquerel criou esta tecnologia, era um período histórico que aquela invenção não teria muita funcionalidade, só vindo a ocorrer vários anos depois.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas