Reação do capítulo 7 : A invenção das guerras na Ciência - O acordo de Sócrates e Cálicles. Nenhuma leitura é isenta de influência, pois ler é interpretar. Para interpretar, supõe-se que o intérprete condiciona sua leitura por uma espécie de pré-compreensão, que surge do seu próprio contexto vital. Diante disso, o texto de Latour apresenta-me com atual e reflexivo. A começar pela primeira frase: " Se o direito não prevalece a Força toma o seu lugar". Lembrou-me de uma frase do pensamento tenentista da década de 20 no Brasil: " Quando a diplomacia falha, falem os fuzis." Latour afirma que ao atacar a razão, a moralidade e a paz social tornam- se impossíveis. Imediatamente veio a minha mente a atual situação do nosso país, onde a razão e a ciência são diariamente atacadas por uma multidão aliciada pelo atual governo que administra o Estado nacional. Outro ponto interessante do trabalho de Latour é como ele descreve a solução dada por Cálicles em relação a Força. Este argumenta que a natureza está acima da história do homem - processo histórico - e por isso: "é justo que os melhores tenham uma parte maior". Um certo austríaco que se tornou líder na Alemanha na década de 30 pensava que sua "raça" era superiora diante das outras e logo deveria ter uma "parte maior" sobre todas. O resultado de suas ações todos nós conhecemos. Por fim, Latour cita uma frase de Nietzsche perfeitamente dentro do contexto do que escreve. A frase: " Sempre é preciso defender o forte contra o fraco" mostra a incongruência dos pensamentos do autor de " Assim falou Zaratustra".
Em “A invenção das guerras na ciência”, Latour vai buscar em Platão, no Górgias, as bases para o nascimento da ciência ocidental e do método científico. É um embate de cartas marcadas, Platão já havia se decidido como terminaria, mas é interessante ver Latour apontar os pontos onde Cálicles, se não fosse apenas um personagem criado por Platão, poderia ter tido um desempenho diferente. Sócrates e Cálicles traçam um embate entre o conhecimento do especialista e o do homem que domina a retórica. Interessante, também, o argumento, válido nos dias de hoje, de que o especialista não sabe se comunicar com o povo, e que muitas vezes ele precisa de um intermediário que convença, mais facilmente, o povo e que este intermediário use da retórica para executar este trabalho. Tendo o conhecimento do especialista, para que haja uma luta, parece faltar o conhecimento do censo comum. Este não está nas preocupações nem de Sócrates, nem de Cálicles. Os dois querem calar a multidão. A discordância deles é se o conhecimento deve ser privilégio apenas dos especialistas, ou se deve ser discutido em assembleias, mas, mesmo estas assembleias, não são para todos, o povo, o conhecimento tácito, o senso comum, ficam de fora. Temos, então, Sócrates e Cálicles do mesmo lado e, contra eles, o povo. Este capítulo parece estar preparando para o próximo. Alguns conceitos foram colocados “na mochila” com a promessa de que seria explorado no próximo capítulo. Bem, vamos a ele.
Na ânsia de manter a razão no controle iniciam-se guerras irracionais. Por razões religiosas, por razões históricas, por razões nacionalistas, por razões territoriais, por razões ideológicas. A razão cria inimigos, fere o desconhecido, mata o opositor. Racional? Uma guerra de dois que camufla uma guerra de muitos, da maioria, da força, do fluxo. A retórica capaz de frear o turbilhão, como as represas são capazes de conter a fluidez dos rios. Racional? Uma década depois de formulado o conceito de inteligência emocional ainda ouvimos o eco desses duros pensadores que acreditam no domínio de uma suposta racionalidade: "confirmar e fortalecer a visão de um mundo racionalmente compreensível se quisermos proteger-nos contra as tendências irracionais que ainda assediam a humanidade". Racional? O céu cair sobre nossas cabeças é irracional. Jogar lixo no céu é racional? Dançar pra chamar a chuva é irracional. Chuva causar enchente e matar gente é racional? Trabalhar só o necessário é irracional. Trabalhar para acumular riqueza é racional? Não entendo. Mas como lindamente poetizou Manoel de Barros: "Entender é parede: procure ser árvore". Quero ser árvore. Quero ser poeta e cientista. Pode?
Maria Veronica Aguilera O subtítulo “O acordo de Sócrates e Cálicles “ mostra-se pertinnte quando Latour esclarece que o mesmo tornou o Estado incapaz de “engolir as duas invenções ( dos gregos) de uma só vez: ciência e democracia” (apodeixis e epodeixis). O que não é claro é o título do capítulo 7: A invenção das Guerras nas Ciências”, A que “guerras” exatamente se refere o autor? Certo que alguns conflitos se enunciam nessa releitura do Górgias, acompanhando os diálogos platônicos, especialmente entre Sócrates e Cálicles. A começar pela conflito entre força/poder, representado por Cálicles e razão ou Direito, por Sócrates, que para Latour desagua no embate maior com o povo de Atenas. Distinção fundamental, entretanto, é a que Sócrates faz entre conhecimento real e técnica, que talvez possamos reduzir ao conflito bem conhecido de todos entre teoria e prática. O autor de A esperança de Pandora fala também da diferença entre o conhecimento especializado dos cientistas e o conhecimento especializado dos retóricos, bem como do conflito entre arte (e aqui é preciso rever o que os gregos chamavam de arte) e a habilidade adquirida pelo hábito. Deduzo que seria necessário ler o original da obra e mergulhar no significado das palavras da filosofia grega e dos conceitos de Platão, especialmente quanto aos Sofistas e à Retórica.
Réu confesso, estou muito longe da erudição, estou no máximo no "gargarejo", mas ouso dizer que o "original da obra" acho que nem o próprio Platão leu. Vai aí um material que achei interessante, mas que dormi quando ouvia: https://youtu.be/R52_e3Q4fIs . Ando muito cansado...
Maria Veronica Aguilera O subtítulo “O acordo de Sócrates e Cálicles “ mostra-se pertinnte quando Latour esclarece que o mesmo tornou o Estado incapaz de “engolir as duas invenções ( dos gregos) de uma só vez: ciência e democracia” (apodeixis e epodeixis). O que não é claro é o título do capítulo 7: A invenção das Guerras nas Ciências”, A que “guerras” exatamente se refere o autor? Certo que alguns conflitos se enunciam nessa releitura do Górgias, acompanhando os diálogos platônicos, especialmente entre Sócrates e Cálicles. A começar pela conflito entre força/poder, representado por Cálicles e razão ou Direito, por Sócrates, que para Latour desagua no embate maior com o povo de Atenas. Distinção fundamental, entretanto, é a que Sócrates faz entre conhecimento real e técnica, que talvez possamos reduzir ao conflito bem conhecido de todos entre teoria e prática. O autor de A esperança de Pandora fala também da diferença entre o conhecimento especializado dos cientistas e o conhecimento especializado dos retóricos, bem como do conflito entre arte (e aqui é preciso rever o que os gregos chamavam de arte) e a habilidade adquirida pelo hábito. Deduzo que seria necessário ler o original da obra e mergulhar no significado das palavras da filosofia grega e dos conceitos de Platão, especialmente quanto aos Sofistas e à Retórica.
Estou mergulhada no entendimento de uma biotecnologia ou como os autores do campo CTS diriam, em um produto das biotecnociências. Vou centrar aqui em como Latour recupera a discussão grega que separa episteme de techné, ou conhecimento científico de conhecimento técnico-prático. Poderíamos dizer que isso é simplesmente uma besteira, mas é importante entender porque e como a CTS aborda a tecnociência. Precisamos pensar em como é difícil separar tecnologia e ciência, pois as duas se imbricam em práticas tecnocientíficas. Pensamos usualmente a ciência como algo feito dentro de laboratórios e a tecnologia como algo que sai da ciência para a população, algo que sai do laboratório. Os estudos sociais da ciência e da tecnologia colocam que o laboratório ou seu equivalente é poroso; que dele entram e saem entidades a todo momento. O que se deve buscar é observar e entender esta rede de atores que estão presentes neste momento. Portanto, entram como membros da rede da dita “ciência pura”, financiadores, revistas científicas, políticos e gestores públicos, equipamentos, torrões de solo, vírus e bactérias, entre outros. A ciência nunca é pura.
COISAS DO CAPÍTULO 1 QUE PEDEM PASSAGEM POR AQUI: Vejam que interessante esta entrevista da Donna Haraway. Ela estava naquela hora da pergunta feita ao Latour " Você acredita na realidade?", do capítulo 1. Lembram? Vale a pena dar uma olhada. Título da entrevista: Feminist cyborg scholar Donna Haraway: ‘The disorder of our era isn’t necessary’: Cyborg Manifesto author and philosopher who explores the nature of reality discusses the science wars and climate activism (por Moira Weigel). Link para a entrevista: https://www.theguardian.com/world/2019/jun/20/donna-haraway-interview-cyborg-manifesto-post-truth
We are often told we are living in a time of “post-truth”. Some critics have blamed philosophers like yourself for creating the environment of “relativism” in which “post-truth” flourishes. How do you respond to that?
Our view was never that truth is just a question of which perspective you see it from.
[The philosopher] Bruno [Latour] and I were at a conference together in Brazil once. (Which reminds me: if people want to criticize us, it ought to be for the amount of jet fuel involved in making and spreading these ideas! Not for leading the way to post-truth.)
Anyhow. We were at this conference. It was a bunch of primate field biologists, plus me and Bruno. And Stephen Glickman, a really cool biologist, took us apart privately. He said: “Now, I don’t want to embarrass you. But do you believe in reality?”
We were both kind of shocked by the question. First, we were shocked that it was a question of belief, which is a Protestant question. A confessional question. The idea that reality is a question of belief is a barely secularized legacy of the religious wars. In fact, reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holdingness of things. Do things hold or not?
Take evolution. The notion that you would or would not “believe” in evolution already gives away the game. If you say, “Of course I believe in evolution,” you have lost, because you have entered the semiotics of representationalism – and post-truth, frankly. You have entered an arena where these are all just matters of internal conviction and have nothing to do with the world. You have left the domain of worlding.
‘Reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holding-ness of things. Do things hold or not?’
‘Reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holdingness of things. Do things hold or not?’ Photograph: James Tensuan/The Guardian - Advertisement
The science warriors who attacked us during the science wars were determined to paint us as social constructionists – that all truth is purely socially constructed. And I think we walked into that. We invited those misreadings in a range of ways. We could have been more careful about listening and engaging more slowly. It was all too easy to read us in the way the science warriors did. Then the rightwing took the science wars and ran with it, which eventually helped nourish the whole fake-news discourse.
No capítulo 7, o autor começa com a frase “Se o Direito não prevalece, a Força toma o seu lugar”, mas em seguida protagoniza a Razão, como algo que nos protege da Força. Acredito que, em especial nos tempos difíceis que passamos, onde parece que ainda estamos com os ânimos polarizados, o Direito, a Razão, o Bom Senso, a Sensatez, devem prevalecer acima de tudo, são a base da civilidade e não podem ser superados pela Força, que quando atua é porque algo não está no eixo e os resultados sempre são desastrosos. O antagonismo da Razão e a Força também semeia a disputa entre Sócrates e três sofistas, sendo que o mais acirrado é Cálicles. Enquanto Sócrates defende o Direito (a Razão), Cálicles está ao lado da Força, no entanto, curiosamente, os dois estão contra o povo. Para eles tanto pelo Direito como pela Força tornam algumas pessoas superiores a outras, e por isso mais capazes e melhores, e nesse caso teriam mais coisas. Seria uma ordem natural das coisas, os mais fortes dominam os mais fracos e em razão disso têm mais que eles, meio que como a lei da selva. Penso que entre essa luta dramática entre o poder da Força e o direito da Razão quem deve se sobrepor é justamente o povo, onde seus interesses devem estar acima de tudo. O Direito, ou Direitos, equilibrados com os Deveres são sempre bem-vindos, diferentemente da Força, que por si só naturalmente impõe resistência, e eventualmente conflito, trazendo, assim, desarmonia e insegurança.
Gostaria de começar dizendo que esse capítulo para mim foi muito difícil. Muitas das discussões e dos raciocínios feitas a respeito de Sócrates de Platão foram para mim praticamente ininteligíveis. Não consegui captar a ideia do autor e o porquê de trazer tais debates neste capítulo. Lendo o capítulo seguinte, creio ter entendido, de maneira breve, que o objetivo de Latour era esclarecer as várias especificações do debate político. No início do capítulo ficou esclarecido para mim como sendo uma argumentação a respeito da inumanidade das ciências, que são feitas para o homem desconsiderando o homem e a sociedade, desconsiderando os impactos e as possíveis consequências que podem ter na sociedade. Quando o autor cita “Resumindo: só a inumanidade irá subjugar a inumanidade. Só a ciência, que não é feita pelo homem, irá proteger um estado em constante risco de ser feito pela multidão” (página 248), me lembra o debate feito a respeito dos cientistas que precisam fazer política e dos políticos que precisam entender sobre ciência no capítulo três. Para além deste raciocínio, foi difícil absorver os debates estruturados no texto deste capítulo.
ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE Aluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa Reação ao capítulo 7 do livro “A Esperança de Pandora”
Neste capítulo, Latour mais uma vez faz uso de uma metáfora: ele trata do conflito entre ciência e política diante ao Estado usando como metáfora o embate entre Sócrates e Cálicles. Neste caso, Sócrates representa a Razão, os sofistas (Górgias, Polo e Cálicles) a voz da Força, e ambos buscam comprovar suas verdades, adotando cada qual uma tática: Sócrates tenta “fazer o adversário hesitar, calar-se” e Cálicles “altera consideravelmente o modelo clássico ao complementar a educação com um apelo à lei que é superior à lei”, sendo a lei da natureza superior em comparação com a lei humana. No entanto, existe outro ator na ilustração desse debate: a “multidão”, referenciada muitas vezes como os “dez mil tolos que produzem suas leis” (o Estado), que fica à espreita, esperando do resultado do conflito entre Razão e Forças as recomendações a seguir. Nesse caso específico, provavelmente por conta da narração tendenciosa de Platão, a Razão triunfa sobre a Força.
Compartilhando a apresentação que fiz refletindo algumas ideias dos capítulos 7 e 8 do Esperança de Pandora. Para acessar copie e cole em um navegador a URL a seguir: http://bit.ly/Capitulos07-08-EsperancadePandora
“Se o Direito não prevalece, a força toma o seu lugar”. Essa frase que começou o capítulo, foi a mais marcante e também intrigante. Poderia ter sido dita com toda propriedade nos dias atuais, mas é um diálogo da época da filosofia Grega. No diálogo de Cálicles ele argumenta que é natural e justo os fortes dominarem os fracos e que é injusto os fracos resistirem a tal opressão ao estabelecerem leis para limitar o poder dos fortes . Argumentava ainda que as instituições e o código moral do seu tempo não foram estabelecidos pelos deuses mas por homens, que buscavam seus próprios interesses . Como ainda existem pessoas nos dias de hoje que não percebem que não há outra forma de entender o que vivemos a não ser mergulharmos nas Ciências? Que o diálogo, a argumentação e os questionamentos são necessários e importantes para seguirmos em frente!!!
Reação do capítulo 7 : A invenção das guerras na Ciência - O acordo de Sócrates e Cálicles.
ResponderExcluirNenhuma leitura é isenta de influência, pois ler é interpretar. Para interpretar, supõe-se que o intérprete condiciona sua leitura por uma espécie de pré-compreensão, que surge do seu próprio contexto vital. Diante disso, o texto de Latour apresenta-me com atual e reflexivo. A começar pela primeira frase: " Se o direito não prevalece a Força toma o seu lugar". Lembrou-me de uma frase do pensamento tenentista da década de 20 no Brasil: " Quando a diplomacia falha, falem os fuzis."
Latour afirma que ao atacar a razão, a moralidade e a paz social tornam- se impossíveis. Imediatamente veio a minha mente a atual situação do nosso país, onde a razão e a ciência são diariamente atacadas por uma multidão aliciada pelo atual governo que administra o Estado nacional.
Outro ponto interessante do trabalho de Latour é como ele descreve a solução dada por Cálicles em relação a Força. Este argumenta que a natureza está acima da história do homem - processo histórico - e por isso: "é justo que os melhores tenham uma parte maior". Um certo austríaco que se tornou líder na Alemanha na década de 30 pensava que sua "raça" era superiora diante das outras e logo deveria ter uma "parte maior" sobre todas. O resultado de suas ações todos nós conhecemos.
Por fim, Latour cita uma frase de Nietzsche perfeitamente dentro do contexto do que escreve. A frase: " Sempre é preciso defender o forte contra o fraco" mostra a incongruência dos pensamentos do autor de " Assim falou Zaratustra".
Em “A invenção das guerras na ciência”, Latour vai buscar em Platão, no Górgias, as bases para o nascimento da ciência ocidental e do método científico. É um embate de cartas marcadas, Platão já havia se decidido como terminaria, mas é interessante ver Latour apontar os pontos onde Cálicles, se não fosse apenas um personagem criado por Platão, poderia ter tido um desempenho diferente. Sócrates e Cálicles traçam um embate entre o conhecimento do especialista e o do homem que domina a retórica. Interessante, também, o argumento, válido nos dias de hoje, de que o especialista não sabe se comunicar com o povo, e que muitas vezes ele precisa de um intermediário que convença, mais facilmente, o povo e que este intermediário use da retórica para executar este trabalho.
ResponderExcluirTendo o conhecimento do especialista, para que haja uma luta, parece faltar o conhecimento do censo comum. Este não está nas preocupações nem de Sócrates, nem de Cálicles. Os dois querem calar a multidão. A discordância deles é se o conhecimento deve ser privilégio apenas dos especialistas, ou se deve ser discutido em assembleias, mas, mesmo estas assembleias, não são para todos, o povo, o conhecimento tácito, o senso comum, ficam de fora. Temos, então, Sócrates e Cálicles do mesmo lado e, contra eles, o povo.
Este capítulo parece estar preparando para o próximo. Alguns conceitos foram colocados “na mochila” com a promessa de que seria explorado no próximo capítulo. Bem, vamos a ele.
Na ânsia de manter a razão no controle iniciam-se guerras irracionais. Por razões religiosas, por razões históricas, por razões nacionalistas, por razões territoriais, por razões ideológicas. A razão cria inimigos, fere o desconhecido, mata o opositor. Racional?
ResponderExcluirUma guerra de dois que camufla uma guerra de muitos, da maioria, da força, do fluxo. A retórica capaz de frear o turbilhão, como as represas são capazes de conter a fluidez dos rios. Racional?
Uma década depois de formulado o conceito de inteligência emocional ainda ouvimos o eco desses duros pensadores que acreditam no domínio de uma suposta racionalidade: "confirmar e fortalecer a visão de um mundo racionalmente compreensível se quisermos proteger-nos contra as tendências irracionais que ainda assediam a humanidade". Racional?
O céu cair sobre nossas cabeças é irracional. Jogar lixo no céu é racional? Dançar pra chamar a chuva é irracional. Chuva causar enchente e matar gente é racional? Trabalhar só o necessário é irracional. Trabalhar para acumular riqueza é racional?
Não entendo. Mas como lindamente poetizou Manoel de Barros: "Entender é parede: procure ser árvore". Quero ser árvore. Quero ser poeta e cientista. Pode?
http://lattes.cnpq.br/0383795207009016: Poeta e matemático pode!
ExcluirMaria Veronica Aguilera
ResponderExcluirO subtítulo “O acordo de Sócrates e Cálicles “ mostra-se pertinnte quando Latour esclarece que o mesmo tornou o Estado incapaz de “engolir as duas invenções ( dos gregos) de uma só vez: ciência e democracia” (apodeixis e epodeixis). O que não é claro é o título do capítulo 7: A invenção das Guerras nas Ciências”, A que “guerras” exatamente se refere o autor? Certo que alguns conflitos se enunciam nessa releitura do Górgias, acompanhando os diálogos platônicos, especialmente entre Sócrates e Cálicles. A começar pela conflito entre força/poder, representado por Cálicles e razão ou Direito, por Sócrates, que para Latour desagua no embate maior com o povo de Atenas. Distinção fundamental, entretanto, é a que Sócrates faz entre conhecimento real e técnica, que talvez possamos reduzir ao conflito bem conhecido de todos entre teoria e prática. O autor de A esperança de Pandora fala também da diferença entre o conhecimento especializado dos cientistas e o conhecimento especializado dos retóricos, bem como do conflito entre arte (e aqui é preciso rever o que os gregos chamavam de arte) e a habilidade adquirida pelo hábito. Deduzo que seria necessário ler o original da obra e mergulhar no significado das palavras da filosofia grega e dos conceitos de Platão, especialmente quanto aos Sofistas e à Retórica.
Réu confesso, estou muito longe da erudição, estou no máximo no "gargarejo", mas ouso dizer que o "original da obra" acho que nem o próprio Platão leu. Vai aí um material que achei interessante, mas que dormi quando ouvia: https://youtu.be/R52_e3Q4fIs . Ando muito cansado...
ExcluirMaria Veronica Aguilera
ResponderExcluirO subtítulo “O acordo de Sócrates e Cálicles “ mostra-se pertinnte quando Latour esclarece que o mesmo tornou o Estado incapaz de “engolir as duas invenções ( dos gregos) de uma só vez: ciência e democracia” (apodeixis e epodeixis). O que não é claro é o título do capítulo 7: A invenção das Guerras nas Ciências”, A que “guerras” exatamente se refere o autor? Certo que alguns conflitos se enunciam nessa releitura do Górgias, acompanhando os diálogos platônicos, especialmente entre Sócrates e Cálicles. A começar pela conflito entre força/poder, representado por Cálicles e razão ou Direito, por Sócrates, que para Latour desagua no embate maior com o povo de Atenas. Distinção fundamental, entretanto, é a que Sócrates faz entre conhecimento real e técnica, que talvez possamos reduzir ao conflito bem conhecido de todos entre teoria e prática. O autor de A esperança de Pandora fala também da diferença entre o conhecimento especializado dos cientistas e o conhecimento especializado dos retóricos, bem como do conflito entre arte (e aqui é preciso rever o que os gregos chamavam de arte) e a habilidade adquirida pelo hábito. Deduzo que seria necessário ler o original da obra e mergulhar no significado das palavras da filosofia grega e dos conceitos de Platão, especialmente quanto aos Sofistas e à Retórica.
Estou mergulhada no entendimento de uma biotecnologia ou como os autores do campo CTS diriam, em um produto das biotecnociências. Vou centrar aqui em como Latour recupera a discussão grega que separa episteme de techné, ou conhecimento científico de conhecimento técnico-prático. Poderíamos dizer que isso é simplesmente uma besteira, mas é importante entender porque e como a CTS aborda a tecnociência. Precisamos pensar em como é difícil separar tecnologia e ciência, pois as duas se imbricam em práticas tecnocientíficas.
ResponderExcluirPensamos usualmente a ciência como algo feito dentro de laboratórios e a tecnologia como algo que sai da ciência para a população, algo que sai do laboratório. Os estudos sociais da ciência e da tecnologia colocam que o laboratório ou seu equivalente é poroso; que dele entram e saem entidades a todo momento. O que se deve buscar é observar e entender esta rede de atores que estão presentes neste momento. Portanto, entram como membros da rede da dita “ciência pura”, financiadores, revistas científicas, políticos e gestores públicos, equipamentos, torrões de solo, vírus e bactérias, entre outros. A ciência nunca é pura.
COISAS DO CAPÍTULO 1 QUE PEDEM PASSAGEM POR AQUI: Vejam que interessante esta entrevista da Donna Haraway. Ela estava naquela hora da pergunta feita ao Latour " Você acredita na realidade?", do capítulo 1. Lembram? Vale a pena dar uma olhada. Título da entrevista: Feminist cyborg scholar Donna Haraway: ‘The disorder of our era isn’t necessary’: Cyborg Manifesto author and philosopher who explores the nature of reality discusses the science wars and climate activism (por Moira Weigel). Link para a entrevista: https://www.theguardian.com/world/2019/jun/20/donna-haraway-interview-cyborg-manifesto-post-truth
ResponderExcluirWe are often told we are living in a time of “post-truth”. Some critics have blamed philosophers like yourself for creating the environment of “relativism” in which “post-truth” flourishes. How do you respond to that?
Our view was never that truth is just a question of which perspective you see it from.
[The philosopher] Bruno [Latour] and I were at a conference together in Brazil once. (Which reminds me: if people want to criticize us, it ought to be for the amount of jet fuel involved in making and spreading these ideas! Not for leading the way to post-truth.)
Anyhow. We were at this conference. It was a bunch of primate field biologists, plus me and Bruno. And Stephen Glickman, a really cool biologist, took us apart privately. He said: “Now, I don’t want to embarrass you. But do you believe in reality?”
We were both kind of shocked by the question. First, we were shocked that it was a question of belief, which is a Protestant question. A confessional question. The idea that reality is a question of belief is a barely secularized legacy of the religious wars. In fact, reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holdingness of things. Do things hold or not?
Take evolution. The notion that you would or would not “believe” in evolution already gives away the game. If you say, “Of course I believe in evolution,” you have lost, because you have entered the semiotics of representationalism – and post-truth, frankly. You have entered an arena where these are all just matters of internal conviction and have nothing to do with the world. You have left the domain of worlding.
‘Reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holding-ness of things. Do things hold or not?’
‘Reality is a matter of worlding and inhabiting. It is a matter of testing the holdingness of things. Do things hold or not?’ Photograph: James Tensuan/The Guardian - Advertisement
The science warriors who attacked us during the science wars were determined to paint us as social constructionists – that all truth is purely socially constructed. And I think we walked into that. We invited those misreadings in a range of ways. We could have been more careful about listening and engaging more slowly. It was all too easy to read us in the way the science warriors did. Then the rightwing took the science wars and ran with it, which eventually helped nourish the whole fake-news discourse.
No capítulo 7, o autor começa com a frase “Se o Direito não prevalece, a Força toma o seu lugar”, mas em seguida protagoniza a Razão, como algo que nos protege da Força. Acredito que, em especial nos tempos difíceis que passamos, onde parece que ainda estamos com os ânimos polarizados, o Direito, a Razão, o Bom Senso, a Sensatez, devem prevalecer acima de tudo, são a base da civilidade e não podem ser superados pela Força, que quando atua é porque algo não está no eixo e os resultados sempre são desastrosos. O antagonismo da Razão e a Força também semeia a disputa entre Sócrates e três sofistas, sendo que o mais acirrado é Cálicles. Enquanto Sócrates defende o Direito (a Razão), Cálicles está ao lado da Força, no entanto, curiosamente, os dois estão contra o povo. Para eles tanto pelo Direito como pela Força tornam algumas pessoas superiores a outras, e por isso mais capazes e melhores, e nesse caso teriam mais coisas. Seria uma ordem natural das coisas, os mais fortes dominam os mais fracos e em razão disso têm mais que eles, meio que como a lei da selva. Penso que entre essa luta dramática entre o poder da Força e o direito da Razão quem deve se sobrepor é justamente o povo, onde seus interesses devem estar acima de tudo. O Direito, ou Direitos, equilibrados com os Deveres são sempre bem-vindos, diferentemente da Força, que por si só naturalmente impõe resistência, e eventualmente conflito, trazendo, assim, desarmonia e insegurança.
ResponderExcluirA reação acima foi registrada por George Gama.
ExcluirGostaria de começar dizendo que esse capítulo para mim foi muito difícil. Muitas das discussões e dos raciocínios feitas a respeito de Sócrates de Platão foram para mim praticamente ininteligíveis. Não consegui captar a ideia do autor e o porquê de trazer tais debates neste capítulo. Lendo o capítulo seguinte, creio ter entendido, de maneira breve, que o objetivo de Latour era esclarecer as várias especificações do debate político.
ResponderExcluirNo início do capítulo ficou esclarecido para mim como sendo uma argumentação a respeito da inumanidade das ciências, que são feitas para o homem desconsiderando o homem e a sociedade, desconsiderando os impactos e as possíveis consequências que podem ter na sociedade. Quando o autor cita “Resumindo: só a inumanidade irá subjugar a inumanidade. Só a ciência, que não é feita pelo homem, irá proteger um estado em constante risco de ser feito pela multidão” (página 248), me lembra o debate feito a respeito dos cientistas que precisam fazer política e dos políticos que precisam entender sobre ciência no capítulo três. Para além deste raciocínio, foi difícil absorver os debates estruturados no texto deste capítulo.
ESTUDOS DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE
ResponderExcluirAluno: Mario Afonso da Silveira Barbosa
Reação ao capítulo 7 do livro “A Esperança de Pandora”
Neste capítulo, Latour mais uma vez faz uso de uma metáfora: ele trata do conflito entre ciência e política diante ao Estado usando como metáfora o embate entre Sócrates e Cálicles. Neste caso, Sócrates representa a Razão, os sofistas (Górgias, Polo e Cálicles) a voz da Força, e ambos buscam comprovar suas verdades, adotando cada qual uma tática: Sócrates tenta “fazer o adversário hesitar, calar-se” e Cálicles “altera consideravelmente o modelo clássico ao complementar a educação com um apelo à lei que é superior à lei”, sendo a lei da natureza superior em comparação com a lei humana. No entanto, existe outro ator na ilustração desse debate: a “multidão”, referenciada muitas vezes como os “dez mil tolos que produzem suas leis” (o Estado), que fica à espreita, esperando do resultado do conflito entre Razão e Forças as recomendações a seguir. Nesse caso específico, provavelmente por conta da narração tendenciosa de Platão, a Razão triunfa sobre a Força.
Compartilhando a apresentação que fiz refletindo algumas ideias dos capítulos 7 e 8 do Esperança de Pandora. Para acessar copie e cole em um navegador a URL a seguir: http://bit.ly/Capitulos07-08-EsperancadePandora
ResponderExcluirLink para o áudio da aula de 27 de junho de 2019: http://bit.ly/20190627_Audio_ECTS
ResponderExcluir“Se o Direito não prevalece, a força toma o seu lugar”. Essa frase que começou o capítulo, foi a mais marcante e também intrigante. Poderia ter sido dita com toda propriedade nos dias atuais, mas é um diálogo da época da filosofia Grega. No diálogo de Cálicles ele argumenta que é natural e justo os fortes dominarem os fracos e que é injusto os fracos resistirem a tal opressão ao estabelecerem leis para limitar o poder dos fortes . Argumentava ainda que as instituições e o código moral do seu tempo não foram estabelecidos pelos deuses mas por homens, que buscavam seus próprios interesses . Como ainda existem pessoas nos dias de hoje que não percebem que não há outra forma de entender o que vivemos a não ser mergulharmos nas Ciências? Que o diálogo, a argumentação e os questionamentos são necessários e importantes para seguirmos em frente!!!
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